Músicas de Protesto – Parte 2

#VemPraRua

Depois de me deliciar escrevendo o Músicas de Protesto – Parte 1 (se você ainda não leu, CLIQUE AQUI para acessar), onde abordei as músicas do período da ditadura militar, eis que chegamos à parte 2 onde partimos do início dos anos 1980 até os dias atuais. Pra mim, foi extremamente prazeroso relembrar essas músicas e suas histórias e eu espero que vocês gostem também.

De Tancredo a Rousseff

Aluga-se

Aluga-seAluga-se”, a composição de Claudio Roberto lançada no início da década de 1980 por Raul Seixas, ainda no regime militar, logo foi censurada. A letra é uma crítica à invasão do capital estrangeiro no País, que permitiu a entrada de diversas multinacionais no mercado brasileiro. A música propõe que o Brasil seja alugado para que outros países explorem suas potencialidades. “A solução pro nosso povo / Eu vou dar / Negócio bom assim / Ninguém nunca viu / Tá tudo pronto aqui / É só vir pegar / A solução é alugar o Brasil”. Posteriormente a música foi regravada por Titãs e Camisa de Vênus.

Veraneio Vascaína

Veraneio VascainaVeraneio Vascaína” composta por Renato Russo e Flávio Lemos quando ambos eram integrantes da Banda Aborto Elétrico, e posteriormente regravada pela Capital Inicial fundada por Flavio Lemos e seu irmão. O título refere-se ao veículo da Chevrolet/GM modelo Veraneio, a viatura mais comum da polícia nas décadas de 70 e 80. O “vascaína” tem sua origem nas cores da PM (preto, branca, cinza e vermelha ), as mesmas do brasão do Vasco. A letra criticava a polícia e seus abusos de autoridade. “Se eles vêm com fogo em cima, é melhor sair da frente / Tanto faz, ninguém se importa se você é inocente” e denunciava os “esquadrões da morte” infiltrados nos batalhões da PM da maioria dos grandes estados.

Era tão louco, nem eles sabiam o que era. Implicavam com todo mundo. Era época da redemocratização. A Colina, que era nossa base bem no comecinho, era também a residência dos professores da UNB – gente da esquerda que não podia falar… E volta e meia vinham as joaninhas – não, nem joaninhas, era veraneio mesmo. Essa história de “Veraneio Vascaína” é por causa disso. Eles entravam na universidade, aquelas coisas de bater em estudante etc… (Renato Russo em entrevista publicada pela Revista ShowBizz, 1989)

Que país é este?

legiaoQue País é Este?”, uma das músicas de protesto mais conhecidas do rock nacional, gravada pelo grupo Legião Urbana, foi composta em 1978 pelo vocalista Renato Russo quando ele ainda fazia parte do Aborto Elétrico, mas só virou hit anos mais tarde. Reproduzida em várias manifestações que eclodiram pelo Brasil nas ultimas décadas, a letra questiona a sujeira do Congresso Nacional e ironiza a imagem do País. “Terceiro mundo, se foi/ Piada no exterior/ Mas o Brasil vai ficar rico/ Vamos faturar um milhão / Quando vendermos todas as almas / Dos nossos índios num leilão/ Que país é esse?” No ano 2000, durante interrogatório da CPI do Narcotráfico transmitida ao vivo pela TV Senado, foi cantada pelo traficante Marcinho VP quando cobrado pelo relator da CPI, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), para entregar os nomes dos “financistas do narcotráfico”. “Isso eu não posso dar, porque não sei, as pessoas entram no tráfico por falta de oportunidades. A sociedade não dá. É como diz a música. – Na favela, no Senado, sujeira para todo lado -, e o favelado só quer viver”. Em novembro de 2014, o ex-diretor de serviços da Petrobras Renato Duque exclamou a frase “que país é esse?” enquanto falava ao telefone com seu advogado após receber voz de prisão de policiais federais por suspeita de corrupção e lavagem de dinheiro. A frase que ganhou os noticiários acabou sendo usada meses mais tarde para nomear a operação da policia federal que prenderia novamente Renato Duque além de outros acusados de corrupção.

Inútil

UltrageInútil” foi lançada em 1985 pela banda Ultraje a Rigor, a música virou hino dos jovens que foram para as ruas durante o movimento Diretas Já. A letra é recheada de erros de concordância e critica o desinteresse do brasileiro por seus direitos e escolhas. A frase de abertura “A gente não sabemos / Escolher presidente” foi inspirada em uma declaração de Pelé de que “o povo brasileiro não sabe votar”. Osmar Santos tocou a música em um comício da campanha das diretas em São Paulo, e o deputado Ulysses Guimarães citou sua letra em um discurso na Câmara Federal. “A gente não sabemos / Escolher presidente / A gente não sabemos / Tomar conta da gente / A gente não sabemos / Nem escovar os dente”, é o verso que abre a música

Até quando Esperar?

PlebeAté quando Esperar?”, composta em 1983 por Philippe Seabra que na época tinha de 15 para 16 anos e lançada em meados de 1985 pela banda brasiliense de punk rock Plebe Rude critica duramente as desigualdades sociais, a corrupção e a já na época evidente concentração de riqueza nas mãos de poucos enquanto a maioria continuava dependente da boa vontade do governo, ou da vontade de Deus no refrão “Com tanta riqueza por aí/ onde é que está/ Cadê sua fração?” e “Até quando esperar/ a plebe ajoelhar/ Esperando a ajuda de Deus”

Alvorada Voraz

RPMAlvorada Voraz” do RPM lançada em 1986 faz um protesto político contra os militares, que estiveram no poder até pouco tempo antes. O título da música faz uma referência à alvorada, que, no meio militar, remete ao despertar dos soldados ao som do trompete, cedo da manhã. Em 2002, o RPM atualizou alguns versos da canção. Na primeira versão, os músicos usaram fatos políticos da época e o refrão dizia “O caso Morel/ O crime da mala/ Coroa-Brastel/ O escândalo das jóias/ E o contrabando/ E um bando de gente/ Importante envolvida…”, basicamente crimes do colarinho branco. Na segunda, foram selecionados escândalos mais atuais: “O caso Sudam/ Maluf, Lalau/ Barbalho, Sarney / E quem paga o jornal é a propaganda/ pois nesse país é o dinheiro quem manda”. Por conta dessa pequena modificação na letra original, Paulo Maluf moveu ação de indenização por danos morais contra os integrantes da banda RPM – Paulo Ricardo Oliveira Nery de Medeiros, Luiz Antonio Chiavon Pereira e Paul Antonio Figueiredo Pagni. Em 2005 o juiz Nilson Wilfred Ivanhoé Pinheiro, da 37ª Vara Cível de São Paulo, julgou a ação improcedente.

Polícia

TitasIntérprete de várias músicas com viés de protesto político, a banda Titãs critica nesta música “Polícia” lançada em 1986 as ações policiais e a forma como a sociedade vê a corporação. A letra foi composta por Tony Belloto depois do mesmo ser preso juntamente com Arnaldo Antunes por porte de heroína em 1985 e traz trechos como “Dizem que ela existe / Pra ajudar / Dizem que ela existe / Pra proteger / Eu sei que ela pode / Te parar / Eu sei que ela pode / Te prender”. Posteriormente foi utilizada como trilha sonora do filme Tropa de Elite. A música também foi regravada pela banda de heavy metal brasileira Sepultura com pequenas “modificações” na letra, incluindo alguns palavrões.

Autoridades

CapitalAutoridades” do Capital Inicial é uma música que, mesmo lançada em 1987, parece que foi composta ontem. É o retrato do Brasil incompetente atemporal. A música afirma que alguns políticos (digo alguns só pra não generalizar, mas são quase todos) se acham totalmente imunes e abusam de privilégios, pois consideram as pessoas como “bonecos para brincar”. Super atual, não?

Brasil

CazuzaCazuza gravou inúmeras músicas que viraram hinos de protesto na geração dos anos 80. Em “Brasil”, ele mostra sua indignação com a situação do País, afundado em desigualdades, escândalos políticos e injustiça. A canção é considerada uma declaração de amor do cantor à pátria. Lançada em 1988, traz versos como “Grande pátria / Desimportante / Em nenhum instante / Eu vou te trair / Não, não vou te trair” e “Não me ofereceram / Nem um cigarro / Fiquei na porta / Estacionando os carros.” Na voz de Gal Costa, a música também foi tema de abertura de novela exibida em horário nobre na TV.

Aos Fuzilados da CSN

GarotosA banda de rock Garotos Podres criou a música “Aos Fuzilados da CSN” em homenagem aos três operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ), que morreram durante uma greve com ocupação da empresa, em 1988. O governo de José Sarney autorizou a invasão do Exército e a repressão ao movimento foi violenta. Mais tarde, a banda fez a canção, que começa com o seguinte verso: “Aos que habitam / Cortiços e favelas / E mesmo que acordados / Pelas sirenes das fábricas / Não deixam de sonhar / De ter esperanças / Pois o futuro / Vos pertence”

Luiz Inácio (300 picaretas)

Paralamas-do-Sucesso-ExposiçãoComposta em 1995 pelo vocalista da banda Paralamas do Sucesso, Hebert Vianna, “Luiz Inácio (300 Picaretas)” foi inspirada em uma frase dita pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (na época ainda não era presidente) em 1993, na qual ele afirmava que “no Congresso há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses”. A letra critica a compra de votos no Brasil, o coronelismo, e cita nomes de políticos corruptos. “Eles ficaram ofendidos com a afirmação /Que reflete na verdade o sentimento da nação / É lobby, é conchavo, é propina e jeton / Variações do mesmo tema sem sair do tom”, diz um trecho. O então deputado Bonifácio de Andrada (PTB-MG) pediu, na época, a censura da música

Diário de um Detento

RacionaisO Rap brasileiro, por essência é quase sempre música de protesto, mas o grupo Racionais MC´s foi um divisor de águas nas músicas de protesto dos anos 90. Com a canção “Diário de um Detento”, lançada em 1998, os temas da favela passaram a ser abordados de outra forma. A letra narra os momentos que precederam o massacre do Carandiru, em 1992. “Aqui estou, mais um dia / Sob o olhar sanguinário do vigia / Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK / Metralhadora alemã ou de Israel / Estraçalha ladrão que nem papel”, diz um trecho. Além de “Diário de um Detento” o cd “Sobrevivendo no Inferno” do Racionais também contava com outra música de protesto intitulada “O Homem na Estrada” que foi inclusive cantada pelo senador Eduardo Suplicy (PT – SP) em 2007. O senador estava na sessão da Comissão e Constituição e Justiça que discutia o projeto de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. A comissão aprovou a proposta por 12 votos a 10. O voto de Suplicy foi contrário à redução da maioridade.

Minha Alma (A paz Que eu Não Quero)

RappaAssim como “Diário de um Detento” do Racionais, “Minha Alma (A paz que eu não quero)”, composta por Marcelo Yuka, foi feita em uma época (final da década de 90) na qual o protesto visava problemas velados, como a violência policial na periferia e as mazelas sociais. Composta na melhor fase do O Rappa (na minha humilde opinião) tem uma das frases mais usadas nos protestos da “Revolução dos R$0,20″ “Pois paz sem voz / paz sem voz / Não é paz, é medo!”. O clipe de “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” foi o maior vencedor na história do VMB, da antiga MTV Brasil. O clipe levou seis prêmios: Melhor Edição, Melhor Fotografia, Melhor Direção, Melhor Clipe Rock, Escolha da Audiência e Videoclipe do Ano. Originalmente, a música deveria se chamar “As Grades do Condomínio São Pra Te Dar Proteção”. A mudança de título foi pedida pelo diretor-executivo da Warner Music, Dr. Dalvo Trombeta.

Ninguém Regula a América

O-rappa-em-GuaratubaO Rappa e Sepultura gravaram a música “Ninguém Regula a América” em 2000 e lançaram um mês antes dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Na canção, os músicos criticam o governo americano, destacando que os EUA vigiam o mundo todo por meio de satélites e que arriscam a população mundial promovendo guerras contra outros países. “Satélites de cima / vigiando todos os atos de rebeldia / MST observado pela CIA / um avião cara-de-pau / preso na China painel de controle / cidades sem culpa”, diz trecho

Até Quando

GabrielDono de vasto repertório que critica o sistema, o músico Gabriel O Pensador escreveu em 2001 a letra de “Até Quando”. A música tenta provocar o brasileiro a tomar uma atitude, questionando “até quando você vai ficar sem fazer nada?” e incentivando o povo a se levantar e ir para as ruas em protestos e greves. “Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente / O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente / Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante / Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante”, diz um trecho. “Até quando você vai ficar usando rédea? / Rindo da própria tragédia”, critica outro. A letra da música dividiu a opinião da crítica especializada, mas chamou a atenção do grande público e alcançou o topo da lista das músicas mais executadas pelas rádios durante o ano.

Saquear Brasília

SaquearLançada em 2012, a música “Saquear Brasília” do Capital Inicial mostra a insatisfação dos brasileiros com os parlamentares, sugerindo que Brasília, sede dos Três Poderes, seja saqueada. A banda, fundada na capital federal, afirma na canção que os políticos mentem e “não sentem nada, eles mentem na sua cara”. “Nobre colega / Acha que a nação inteira / É surda e cega / Hipocrisia todo dia / Faz parte da mobília”, diz trecho da letra.

Quem é Você?

detonautas1A banda Detonautas lançou a canção “Quem é Você?” em 2013, em meio aos protestos que tomaram conta do País. A letra faz duras críticas às igrejas evangélicas, ao culto das celebridades e ao governo. A música, composta em 2012, narra várias situações da vida do cidadão comum, que sofre com o acesso à saúde e com a desigualdade social. “Você trabalha feito um burro de carga / Puxando um sistema podre que é bancado com o seu suor / E sexta-feira vai pra igreja comungar com a sua família / A voz sagrada, Jesus Cristo é o senhor”, diz trecho

Vem pra Rua

1372272989vemprarua370x211Cantada por Marcelo Falcão (vocalista do O Rappa) e escrita por Henrique Ruiz Nicolau e produzida por Simoninha (filho de Wilson Simonal) como jingle para uma campanha publicitária da FIAT exaltando a Copa das Confederações FIFA 2013 e Copa do Mundo FIFA 2014 que aconteceria no Brasil “Vem pra Rua” acabou virando hino e tema dos protestos iniciados em 2013 como o movimento #VemPraRua. Versos como “Vem, vamos pra rua / Pode vir que a festa é sua / Que o Brasil vai estar gigante / Grande como nunca se viu” acabaram inspirando gritos de ordem nos protestos com frases como “o Gigante acordou”.

Chega!

Gabriel2Enquanto milhares de pessoas saiam às ruas em todo o país no dia 15/03/2015 Gabriel o Pensador também resolveu fazer sua parte e lançou sua nova música “Chega!” nas redes sociais com direito a clipe com a letra da música (oportunismo, quem sabe), mas é inegável que a música é muito boa e fala sobre todas as atuais mazelas brasileiras. Na letra de “Chega!”, Gabriel O Pensador fala sobre a política brasileira, a polícia, a situação nos hospitais e ainda cita a crise hídrica. Embora a letra toda seja muito boa, a melhor parte com certeza é o refrão que diz ”Morreu mais uma menina /que falta de sorte/ não traficava cocaína/ e recebeu pena de morte/ mais uma bala perdida, paciência/ pra ela ninguém fez nenhum pedido de clemência” que critica claramente a política de relações internacionais da presidente Dilma Rousseff que chegou a ameaçar com sanções administrativas a Indonésia por condenar um traficante brasileiro à pena de morte e ignorar o pedido de clemência da presidente.

Quem curtiu a seleção de músicas listadas acima tem a opção de baixar todas as músicas em arquivo comprimido CLICANDO AQUI.

Quem faz lista sempre peca e ajoelha no milho da omissão. Essas são as minhas preferidas, mas com certeza existem outras. Do que você sentiu falta, caros leitores? Ajude a inteirar a seleção aí nos comentários.

Músicas de Protesto – Parte 1

PLATIA~1

Desde que mundo é mundo e música existe como forma de expressão artístico-cultural, há quem se utilize de musica para criticar a situação social, política e econômica de sua cidade, país e etc.

No Brasil a prática já existia desde o Brasil Império, mas se tornou mais evidente com o golpe militar de 1964 (iniciado há exatos 51 anos) que instaurou no Brasil uma forte censura, praticada através dos Atos Institucionais (AI’s) criados para aumentar a repressão do estado sobre a população ou qualquer manifestação que fosse contrária ao governo imposto no país.

Embora muitas composições não tenham escapado à forte vigilância da censura, algumas escaparam e acabaram virando grandes sucessos, marcaram sua época e são lembradas até hoje. De lá pra cá, muitas outras musicas foram lançadas como forma de protesto, principalmente após o fim da ditadura militar na década de 1980.

Na atual situação político-econômica do Brasil, com toda a insatisfação da população em ebulição por conta dos inúmeros escândalos de corrupção envolvendo o governo, senti falta das músicas de protesto, cheguei a comentar isso nas redes sociais outro dia. Por isso resolvi relembrar músicas de protesto que marcaram época e dividir essa nostalgia com vocês.

Para tanto, pretendo dividir esse texto em duas partes, uma especificamente listando minhas músicas de protesto preferidas dos anos de ditadura militar entre 1964 e 1985 e outra com as preferidas da democracia de 1985 em diante.

De Castelo Branco a Figueiredo

Alegria, alegria

1967-Caetano-Veloso-originalAlegria, alegria foi lançada em 1967, por Caetano Veloso. Incitava a rebeldia e o anarquismo, retratava (ainda que discretamente) a opressão ao cidadão em todas as esferas sociais. A letra criticava o abuso do poder e da violência, as más condições do contexto educacional e cultural estabelecido pelos militares, aos quais interessava formar brasileiros alienados.

Pra não dizer que não falei das flores

31-03-2014_11_00_12_Pra não dizer que falei das flores lançada em 1968 por Geraldo Vandré que foi um dos primeiros artistas a ser perseguido e censurado pelo governo militar. A música foi a sensação do Festival de Música Brasileira da TV Record, se transformando em um hino para os cidadãos que lutavam pela abertura política. Através dela, Vandré chamava o público à revolta contra o regime ditatorial e ainda fazia fortes provocações ao exército no refrão “Há soldados armados / Amados ou não / Quase todos perdidos / De armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam / Uma antiga lição: De morrer pela pátria / E viver sem razão”.

Cálice

chico-buarque-em-apresentacao-de-1971-1395083073203_956x500A música Cálice, lançada por Chico Buarque de Holanda em 1973, deveria apenas fazer alusão a oração de Jesus Cristo dirigida a Deus no Jardim do Getsêmane: “Pai, afasta de mim este cálice”, mas subestimaram a genialidade do autor que estava na verdade explorando a sonoridade e o duplo sentido das palavras “cálice” e “cale-se” para criticar o regime militar que impunha o silencio como regra para aqueles que ousavam incomodar o regime.

O bêbado e o equilibrista

elisO bêbado e o equilibrista, gravado por Elis Regina em 1979, foi composto por Aldir Blanc e João Bosco. A música pedia abertamente a anistia ampla, geral e irrestrita dos exilados no refrão “Que sonha com a volta / Do irmão do Henfil / Com tanta gente que partiu / Num rabo de foguete” e ainda fazia alusão às esposas do operário Manuel Fiel Filho e do jornalista Vladimir Herzog, assassinados sob tortura no interior do DOI-CODI pelo exército no refrão “Chora! A nossa Pátria Mãe gentil / Choram Marias e Clarisses / No solo do Brasil”

Apesar de você

chicoApesar de você foi lançada por Chico Buarque de Holanda em 1970, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Depois de Geraldo Vandré, Chico Buarque era sem sombra de dúvidas o artista mais odiado pelo governo militar, tendo dezenas de músicas censuradas. Para driblar a censura, ele afirmou que a música “Apesar de Você” contava a história de uma briga de casal, cuja esposa era muito autoritária. A desculpa funcionou e o disco foi gravado, mas os oficiais do exército logo perceberam que o alvo era o próprio general Médici e a música foi proibida de tocar nas rádios.

Jorge Maravilha

julinhodaadelaidechicobuarqueJorge Maravilha, lançada em 1974 por Julinho de Adelaide que nada mais era que um dos pseudônimos usados por Chico Buarque de Holanda para driblar a censura, falava sobre uma relação conflituosa entre sogro, genro e filha. Mas, na verdade, fazia alusão à família do general Ernesto Beckmann Geisel. Ernesto Geisel, assim como Emílio Garrastazu Médici, odiava Chico Buarque. No entanto, a filha do militar manifestava interesse pelo trabalho do compositor. O refrão “você não gosta de mim, mas sua filha gosta” foi visto como uma clara provocação ao general.

Eu te amo meu Brasil

domeravelEnquanto as músicas denunciavam (ou pelo menos tentavam denunciar) as práticas deploráveis que aconteciam na escuridão dos porões da ditadura onde estudantes, jornalistas, políticos, líderes sindicais e outros representantes da sociedade, opositores do regime militar, eram barbaramente torturados e até mesmos assassinados. O governo militar contra-atacava com uma forte propaganda pró ditadura que lançou slogans como “Brasil, Ame-o ou Deixei-o!”, e diante do acirramento da repressão, muitos, mesmo sem deixar de amar o país, acabaram optando pela segurança do exílio voluntário. Diante da debandada generalizada de intelectuais, artistas e estudantes para outros países o governo militar retrucou com outra frase: “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”.

Em tempos em que frases como “Ninguém segura este país” eram comuns nas propagandas oficiais, a dupla Dom e Ravel lançou a música “Eu te amo meu Brasil” e foi duramente criticada por sua canção ser considerada alienada, para muitos, completamente alinhadas com a estratégia de propaganda militar que tentava a qualquer custo vender a imagem de um país de jovens, portanto com um futuro promissor, “Um país que vai pra frente”, frase de outra peça publicitária do governo. O marketing oficial também queria passar a imagem de uma nação limpa e próxima do desenvolvimento.

Também é fato que a obra dos dois irmãos cearenses, intencionalmente ou não, se adequava à onda patriótica que pretendia impor os poderosos de coturno e, apesar do sucesso inicial, custaria caro aos dois cantores. Os cantores estigmatizados pela esquerda como “A Dupla da Ditadura” principalmente por conta da musica “Eu te amo meu Brasil”, curiosamente, caiu em desgraça com os militares e seus seguidores da direita ao lançar, em 1974, a música “Animais Irracionais” que falava das injustiças sociais. A obra foi censurada pelos militares e a dupla aos poucos caiu no ostracismo.

Link para baixar as músicas citadas acima via 4shared em arquivo comprimido – CLIQUE AQUI

O Brasil tem vergonha de você!

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Se a seleção (futebol, vôlei, basquete, arremesso de celular e etc.) está ganhando, todos gritam “Eu sou Brasileiro, com muito orgulho, como muito amor…”. Se a moeda está estável e valorizada em relação às outras moedas todos resolvem viajar pra Buenos Aires, Bariloche, Miami, New York pra ostentar o poderio econômico “brasileiro”. Quando os telejornais transmitem imagens de guerras, ataques terroristas, desastres naturais e crises epidemiológicas dizimando milhares de vidas em outros países, todos falam “ainda bem que isso não acontece no Brasil”.

Mas basta sinalizar pra uma crise econômica, deflagrar uma denúncia de corrupção e tomar sete gols da Alemanha pra esse mesmo povo começar a dizer “quero ir embora desse país”, “affe, vergonha de ser brasileiro” e etc.

Em meio à revolta, a mundialmente conhecia “memória curta” do brasileiro dá lugar a uma memória muito boa que começa a lembrar que “pagamos os impostos mais altos do mundo”, que “temos os piores e mais caros automóveis do mundo”, que nossos políticos são os “mais caros do mundo”, que o valor da energia elétrica cobrada no Brasil poderia facilmente custear a chegada do “segundo sol” para realinhar a órbita dos planetas.

Não seria ótimo se essa memória estivesse tão boa assim no dia das eleições? Não seria ótimo se essa vergonha repentina pudesse dar forças aos envergonhados para que eles cobrassem dos representantes que ajudaram a eleger uma atitude para começar a mudar o país?

Não seria maravilhoso se as pessoas que ameaçam ir embora do Brasil a cada possibilidade de crise realmente fossem e não voltassem nunca mais? Ou será que elas acham que o Brasil precisa de gente para usufruir do bônus e fugir quando chega a hora do ônus?

Não adianta ficar reclamando do governo nas redes sociais, dizer que não elegeu os governantes e colocar a culpa nos nordestinos e nos pobres pela situação do país. O fato de você não ter feito nada não te torna menos culpado. Não fazer nada e não participar ativamente de nada é se omitir, é permitir que outros façam à sua revelia.

Ser omisso é uma escolha, e toda escolha gera uma semente. Toda semente, sem exceção, gerará um fruto correspondente. Agora estamos colhendo os frutos que plantamos com as sementes que nossas escolhas geraram.

Você pode ficar e ajudar o Brasil a mudar, ou pode ir embora para outro país e continuar reclamando do Brasil. Só não fique aqui se omitindo pra depois querer apontar culpados pela sua insatisfação nas redes sociais do fim do carnaval ao início do natal.